A volatilidade do fato histórico na política
Me lembro bem dos tempos de quando estudava no Ensino Fundamental em
uma escola relativamente pequena em uma parte pitoresca do meu bairro na qual havia
um pequeno museu dedicado aos acontecimentos da Revolução de 1932. Foi naquele
tempo que começou a ser despertado o meu interesse pela compreensão do passado, o
qual se intensificava poderosamente ao ouvir meu pai contar sobre as histórias do meu
bisavô “na guerra de trinta e dois”.
Tal interesse me fez pensar seriamente nas implicações desse evento histórico:
São Paulo se revoltou contra o Presidente Vargas em razão da falta de uma constituição,
tendo em vista que Getúlio estava a dois anos governando por decretos. No entanto,
muitos acreditam que tal acontecimento evoca a ideia de São Paulo como um Estado
independente. Por mais que o estado operou distante da União durante a guerra, em
momento algum esse foi o objetivo final. Mas então por que se pensa superficialmente
que isso é relevante no estudo desse acontecimento?
A resposta é mais insidiosa do que parece ser, mas de fato se relaciona à ideia de
um certo revisionismo histórico. Isso é um mero exemplo local de um acontecimento
crescente nos dias de hoje: A reinterpretação do passado. Tal ato pode ocasionar uma
distorção da memória coletiva em relação ao verídico.
O motivo de considerar isso levemente insidioso é justamente a forma como isso
é feito. Diversas visões históricas são enviesadas politicamente, especialmente quando
precisam ser ensinadas em massa, como no Brasil. Isso, entretanto, não quer dizer que
há uma “grande conspiração” por trás da forma como as próximas gerações interpretam
o passado. A realidade é muito mais simples, muitas vezes a história é de fato escrita
pelos vencedores. Tomemos como exemplo a Primeira República. A forma como é
ensinada nas escolas nos passa a ideia de que o Brasil era uma grande fazenda sem
democracia. No entanto, a realidade da época era bem diferente, por mais que de certa
forma se assemelhasse ao que é contado. Isso ocorre porque quem teve a oportunidade
de escrever sobre esse tema provavelmente precisou opor esse período à Era Vargas
subsequente de modo a precisar escolher um posicionamento, por mais que muitas
vezes isso ocorresse indiretamente ou inconscientemente.
Essa manipulação essencialmente política do passado acontece em todos os
cantos do espectro político. A esquerda se acostumou a denominar políticos da direita
populista de fascistas da mesma forma que a direita também se acomodou com a ideia
de chamar toda de forma de dissidência de socialismo ou comunismo. Isso tudo, por
mais que seja chamativo ao público desses setores políticos pode muitas vezes
prejudicar o debate sério de ideologias. Ao chamar alguém de alguns desses rótulos de
uma forma tão incriteriosa e repentina, o indivíduo, na verdade, banaliza essas
ideologias autoritárias que deram origem a alguns dos acontecimentos mais
sanguinários da História.
Sendo assim, por uma perspectiva Interacionista Simbólica, essa reinterpretação
da História traz, muitas vezes ao debate político, por mero excesso de visibilidade,
ideias arcaicas e possivelmente radicais. Isso não quer dizer que essas visões não
precisam ser estudadas, muito pelo contrário, precisam sim serem vistas e revistas, mas
sempre com a seriedade acadêmica que merecem, muito distante do “clubismo” raso
que frequentemente brinca com anacronismos, observado atualmente.
Assim, percebe-se que o que está comprometido é o direito à memória. Embora
a mente humana sujeita a diversos estímulos naturalmente modifique a memória
individual, isso não pode acontecer com a memória do coletivo. Sendo essa, uma face
importante do que se torna o registro histórico. Portanto, o revisionismo observado é um
“mau” em três tempos: a partir da mentalidade do atual, modifica o passado para
adequá-lo ao presente, visando direcioná-lo a um futuro desejado e muitas vezes
utópico.
Concordo plenamente com a visão distorcida nos dias de hoje de direita e esquerda. Essa visão leva somente a um reducionismo da discussão dos problemas atuais e uma situação em que temos sempre o "roto" reclamando do "esfarrapado" sem encontrar um saída adequada na qual possamos construir uma sociedade mais justa.
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