Com o resultado das eleições do último domingo (29), Bruno Covas (PSDB) conquista a reeleição e garante a continuidade do projeto tucano na cidade de São Paulo. Com 59,38% dos votos, o atual prefeito teve uma performance consideravelmente acima do que se esperava nas últimas pesquisas eleitorais, mesmo com a abstenção recorde que prejudicou o candidato (1).
Todavia, Covas não foi o único vencedor dessa eleição. Guilherme Boulos (PSOL), seu concorrente, também sai dela vitorioso. Por mais estranho que pareça, tendo em vista 2022, a eleição de Boulos traria mais malefícios ao seu partido e a si do que benefícios. É notória a força política que Boulos conquistou durante a campanha municipal em relação a 2018. De 617.122 votos na eleição presidencial o candidato passou a mais de dois milhões de votos na eleição municipal de São Paulo, um salto de desempenho eleitoral bastante expressivo. Além disso, ao longo da campanha, apresentou uma postura distinta daquela adotada pela maior parte dos partidos de esquerda: fez uma campanha pautada nas redes sociais e focada principalmente no eleitorado mais jovem. Tal estratégia provou-se extremamente eficiente em 2018, quando Bolsonaro (sem partido) executou-a com maestria, e até então havia sido muito pouco utilizada pela esquerda.
A forma mais “atualizada” de fazer campanha política apresentada por Boulos, aliada ao seu desempenho expressivo na cidade de São Paulo, colocam-no como uma das principais lideranças da esquerda no país e, indubitavelmente, como o maior expoente do PSOL. Dessa forma, fica claro que o candidato derrotado surge como uma figura importante em uma esquerda que busca se reinventar em um cenário de enfraquecimento do PT, que apresentou o pior resultado de sua história nas capitais. Mesmo que o psolista não se torne presidenciável, sua importância é crescente no cenário nacional e deve ser reconhecida nas eleições de 2022, seja apoiando candidaturas, seja compondo uma chapa.
Assim, é do interesse de parte considerável da esquerda, especialmente do PSOL, que Boulos mantenha essa tendência de crescimento político até 2022, o que seria muito difícil governando a capital paulista. PSOL, PT, Rede, PDT, UP, PCdoB e PCB declararam apoio a Boulos no segundo turno, sinalizando quais partidos poderiam, com certo trabalho de conciliação, apoiar o ativista na Câmara Municipal de SP caso ele saísse vitorioso na eleição. Tais partidos totalizam apenas 14 assentos de 55 na atual disposição de vereadores, mostrando que para governar Boulos teria de conquistar pelo menos mais 14 assentos de partidos como o PSDB (8), o DEM (6), o Republicanos (4), o MDB (3), dentre outros partidos aos quais o ex-candidato a prefeito nutre grande animosidade.
Ainda sobre as dificuldades que se apresentariam em uma administração de Boulos, está a própria Luiza Erundina, tida pelo ex-candidato como um exemplo de administração pública e que seria uma integrante fundamental do projeto de governo do PSOL. Todavia, a ex-prefeita de São Paulo apresentou uma taxa de aprovação ao fim de seu mandato de apenas 29%, ao passo que a rejeição alcançou 38%, um exemplo no mínimo controverso de boa governança municipal. Rejeição essa que se deve, em parte, à dificuldade de Erundina em conseguir uma coalizão no Legislativo para governar de fato, cenário que claramente se configurava para Boulos em 2020.
Por fim, tendo em vista o discurso de embate à direita e ao centrão que Boulos proferiu ao longo de sua trajetória política; um legislativo avesso em sua maioria à sua inclinação política; e a falta de experiência da chapa em consolidar uma coalizão robusta; provavelmente a administração do ex-candidato seria turbulenta e árdua. Cenário esse que traria um forte revés à sua ascensão política conquistada até aqui, podendo prejudicá-lo severamente nas eleições de 2022. Por isso, é prudente afirmar que a vitória do tucano foi boa para Boulos: Covas venceu e Boulos também
Fernando Fuentes é estudante da FEA USP e membro da EPEP-FEA
(1) Segundo o Datafolha, Covas era o candidato mais popular entre as camadas mais velhas da população,
que foi o grupo que mais desfalcou as votações direta, ou indiretamente, devido a pandemia de Coronavírus.
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