O Efeito do Carisma na Politica Brasileira
O
termo carisma, do grego “charis” que significa “graça”, tem origem nos escritos
de São Paulo. Em suas cartas, este usa o termo para caracterizar dons
espirituais dados à alguns indivíduos pela graça divina, como a sabedoria e a
pregação. Somente no século XX o termo passou a ter conotação política, graças
a Max Weber, que classificou o carisma (Charismatiche Herrschaft) como uma das
três formas de dominação legitimadas em sua grande obra Economia e Sociedade. No intuito de explicar os efeitos e o peso do
carisma nas democracias modernas, diversas teorias tem surgido, donde algumas
podem ser empregadas para o estudo da política brasileira.
Desde
o início da república, diversas lideranças carismáticas ascenderam na política,
sendo a maior parte delas líderes de movimentos opositores ao sistema e a ordem
vigentes. Tal fenômeno, vai ao encontro da tese do sociólogo alemão que diz que
o portador do carisma age como uma fissura na ordem cotidiana, rompendo com a
tradição e as normas, estabelecendo uma nova ordem baseada em si mesmo: “o
carisma opõe-se, de início, a toda forma de organização administrativa
burocrática, conhecendo apenas limites ‘imanentes’, (...), rompe as regras da
tradição dada; encontra, no passar do tempo, desafios de conservação que
levarão à inevitável institucionalização/burocratização”
Antônio
Conselheiro, Lampião, Padre Cícero e o monge José Maria são exemplos de líderes
carismáticos que estão até hoje vivos no imaginário popular e que cumpriram com
a tese weberiana de que “é o carisma, de fato, o poder revolucionário
especificamente ‘criador’ da história”. Nesse sentido, talvez nenhum outro
personagem da política brasileira cumpriu tão bem tal descrição weberiana quanto
Getúlio Vargas. Este assumiu o poder através de um golpe autoproclamado de
“revolução”, estabelecendo um governo sem compromisso com as instituições
preestabelecidas, para então formar uma nova ordem baseada na sua própria
figura.
É
importante ressaltar que, na maioria das vezes ao longo da história, governos
que se baseiam no carisma de seus líderes tem fins abruptos, senão até trágicos,
deixando a nação órfã de ideais e ordem. O resultado desse processo são
períodos de instabilidade que se traduzem em fenômenos já conhecidos pelo povo
brasileiro, como a desordem econômica e jurídica.
Além
disso, casos como: a escolha de candidatos com elevada incompetência administrativa;
a criação de partidos políticos personalistas que não acrescentam valor ao
processo democrático, visto que não tem ideais realmente definidos além da
fidelidade ao seu fundador; e a propensão a graves mudanças a cada novo
governo, gerando por diversas vezes atrasos institucionais; são alguns dos efeitos
colaterais da recorrência histórica de movimentos políticos baseados no carisma
de seus líderes.
Ademais,
há uma grande semelhança em todos eles: a eterna luta brasileira contra a
corrupção e “contra tudo isso que tá aí”. A questão é que primeiro: a simples
luta pelo fim da corrupção no governo, apesar de importante, não tem um fim em
si mesma e não pode se constituir como um objetivo final para uma nação. O foco
deve ser aquilo que se alcançará com a superação da corrupção e do
patrimonialismo. Em segundo lugar, a eleição de candidatos do tipo “contra tudo
e contra todos” só intensifica o processo de atraso institucional, previamente
mencionado, e cria uma propensão a perda de sua legitimação sempre que esse
candidato precisar de apoio político do “establishment” para poder governar de
fato.
Portanto, apesar do carisma ter um importante
papel histórico nas mudanças políticas, conclui-se que para a manutenção plena
da ordem institucional, a tendência à escolha de líderes carismáticos é danosa
para a mesma e impede a solidificação de políticas de longo prazo.
Referências
Freitas da Silva, E.
(2019). A problemática sociológica do
carisma: a definição weberiana, apropriações sócioantropológicas e um estudo de
caso a partir da noção
conceitual. INTER-LEGERE, p. 140. ISSSN 1982-1662
John Potts (2017). Carisma é um dom tão misterioso quanto
perigoso. Nexo Jornal https://www.nexojornal.com.br/externo/2017/01/06/Carisma-%C3%A9-um-dom-t%C3%A3o-misterioso-quanto-perigoso#:~:text=As%20origens%20do%20carisma%20s%C3%A3o,ou%20o%20%22dom%20espiritual%22. Acesso em: 27 out. 2020.
FRAGA, Vitor
Galvão. Os três tipos de dominação legítima de Max Weber. Revista
Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 18, n.
3791, 17 nov. 2013. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/25863. Acesso em: 27 out. 2020.
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