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O Efeito do Carisma na Política Brasileira , por Tiago Moutta

 

O Efeito do Carisma na Politica Brasileira

 


            O termo carisma, do grego “charis” que significa “graça”, tem origem nos escritos de São Paulo. Em suas cartas, este usa o termo para caracterizar dons espirituais dados à alguns indivíduos pela graça divina, como a sabedoria e a pregação. Somente no século XX o termo passou a ter conotação política, graças a Max Weber, que classificou o carisma (Charismatiche Herrschaft) como uma das três formas de dominação legitimadas em sua grande obra Economia e Sociedade. No intuito de explicar os efeitos e o peso do carisma nas democracias modernas, diversas teorias tem surgido, donde algumas podem ser empregadas para o estudo da política brasileira.  

            Desde o início da república, diversas lideranças carismáticas ascenderam na política, sendo a maior parte delas líderes de movimentos opositores ao sistema e a ordem vigentes. Tal fenômeno, vai ao encontro da tese do sociólogo alemão que diz que o portador do carisma age como uma fissura na ordem cotidiana, rompendo com a tradição e as normas, estabelecendo uma nova ordem baseada em si mesmo: “o carisma opõe-se, de início, a toda forma de organização administrativa burocrática, conhecendo apenas limites ‘imanentes’, (...), rompe as regras da tradição dada; encontra, no passar do tempo, desafios de conservação que levarão à inevitável institucionalização/burocratização” (Freitas da Silva, 2019).

            Antônio Conselheiro, Lampião, Padre Cícero e o monge José Maria são exemplos de líderes carismáticos que estão até hoje vivos no imaginário popular e que cumpriram com a tese weberiana de que “é o carisma, de fato, o poder revolucionário especificamente ‘criador’ da história”. Nesse sentido, talvez nenhum outro personagem da política brasileira cumpriu tão bem tal descrição weberiana quanto Getúlio Vargas. Este assumiu o poder através de um golpe autoproclamado de “revolução”, estabelecendo um governo sem compromisso com as instituições preestabelecidas, para então formar uma nova ordem baseada na sua própria figura.

            É importante ressaltar que, na maioria das vezes ao longo da história, governos que se baseiam no carisma de seus líderes tem fins abruptos, senão até trágicos, deixando a nação órfã de ideais e ordem. O resultado desse processo são períodos de instabilidade que se traduzem em fenômenos já conhecidos pelo povo brasileiro, como a desordem econômica e jurídica.

            Além disso, casos como: a escolha de candidatos com elevada incompetência administrativa; a criação de partidos políticos personalistas que não acrescentam valor ao processo democrático, visto que não tem ideais realmente definidos além da fidelidade ao seu fundador; e a propensão a graves mudanças a cada novo governo, gerando por diversas vezes atrasos institucionais; são alguns dos efeitos colaterais da recorrência histórica de movimentos políticos baseados no carisma de seus líderes.

            Ademais, há uma grande semelhança em todos eles: a eterna luta brasileira contra a corrupção e “contra tudo isso que tá aí”. A questão é que primeiro: a simples luta pelo fim da corrupção no governo, apesar de importante, não tem um fim em si mesma e não pode se constituir como um objetivo final para uma nação. O foco deve ser aquilo que se alcançará com a superação da corrupção e do patrimonialismo. Em segundo lugar, a eleição de candidatos do tipo “contra tudo e contra todos” só intensifica o processo de atraso institucional, previamente mencionado, e cria uma propensão a perda de sua legitimação sempre que esse candidato precisar de apoio político do “establishment” para poder governar de fato.

            Portanto, apesar do carisma ter um importante papel histórico nas mudanças políticas, conclui-se que para a manutenção plena da ordem institucional, a tendência à escolha de líderes carismáticos é danosa para a mesma e impede a solidificação de políticas de longo prazo.

 

Referências

Freitas da Silva, E. (2019). A problemática sociológica do carisma: a definição weberiana, apropriações sócioantropológicas e um estudo de caso a partir            da noção conceitual. INTER-LEGERE, p. 140. ISSSN 1982-1662

John Potts (2017). Carisma é um dom tão misterioso quanto perigoso. Nexo Jornal https://www.nexojornal.com.br/externo/2017/01/06/Carisma-%C3%A9-um-dom-t%C3%A3o-misterioso-quanto-perigoso#:~:text=As%20origens%20do%20carisma%20s%C3%A3o,ou%20o%20%22dom%20espiritual%22. Acesso em: 27 out. 2020.

FRAGA, Vitor Galvão. Os três tipos de dominação legítima de Max Weber. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 18, n. 3791, 17 nov. 2013. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/25863. Acesso em: 27 out. 2020.

 

 

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