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Campanhas eleitorais : conciliar ou atacar ? por josé Rossin




 “A política é uma guerra sem derramamento de sangue” afirma Mao Tsé-Tung. Em períodos de eleição essa "guerra" fica mais evidente por meio de diversas formas de ataques que adversários trocam durante debates, propagandas e trocas de ofensas nas redes sociais. Cada candidato adota uma estratégia para convencer parte do eleitorado de que suas ideias, biografias e propostas são mais consistentes que as dos demais concorrentes.  Esse embate faz parte do jogo democrático, porém há diferentes formas como ele pode ser executado.   

De um lado, existem campanhas mais agressivas, em que ataques de todas as naturezas são feitas pelos políticos. Por outro, existem aqueles que resolvem adotar uma postura mais "diplomática" para passar uma mensagem de tranquilidade e respeito. Qual o melhor caminho? O que mobiliza mais o eleitorado? Qual é mais legítima? 

Alguns afirmam que políticos menos combativos não passam credibilidade por não lutar pelas suas convicções. Ou seja, aquele que não se posiciona sobre nada, provavelmente não terá coragem suficiente para resolver os malfeitos e enfrentar os desafios da vida pública. Outros dizem que muita agressividade pode estragar a imagem de líder que muitos querem construir.  

Apesar de não ser sempre respeitado, existe um limite entre montar um discurso combativo e um discurso antiético. Na prática essa fronteira não é tão clara, mas existe uma diferença entre criticar um projeto e um conjunto de ideias e atacar com mentiras. Ou seja, uma coisa é dizer que o candidato X não tem boas propostas, outra é disseminar insultos , mesmo sem base legal que os comprovem.


Por que montam uma campanha diplomática ? 

Uma campanha dita “diplomática” é aquela que está preocupada em lançar propostas e projetos em vez de atacar adversários. Em resumo, significa adotar uma linguagem mais pacifista sem partir para ataques pessoais.  Por mais que possa parecer muito nobre, talvez seja incomum no mundo real. Isso porque os ataques podem não ser diretos e a difamação dos concorrentes pode acontecer por debaixo dos panos. É importante observar isso pois mesmo que um candidato pessoalmente não resolva atacar o outro, sua equipe e apoiadores podem o fazer indiretamente de várias outras formas.  


Argumentos favoráveis  

Por outro lado, essas campanhas também têm suas vantagens. Se forem elaboradas com sinceridade, podem associar o perfil do candidato à sabedoria. Nem sempre a sociedade quer uma pessoa briguenta no poder, e aquele que consegue construir discursos de tranquilidade pode demonstrar liderança e serenidade. Enquanto seu adversário manifesta várias críticas muitas vezes ilógicas e sem fundamento, o silêncio e a indiferença - em alguns casos- podem ser respostas adequadas a uma campanha agressiva.  


Argumentos contrários  

Um problema desse tipo de campanha pode ser a falta de mobilização dos grupos e , por consequência, pouco engajamento. Somado ao fato de que a linguagem utilizada pode soar excessivamente decorada e o candidato parecer que está repetindo o que foi ensaiado com marqueteiros e assessores. Além disso, a imagem do candidato(a) também pode ser associada a falta de convicções. Em outros termos, ao saber que tem tanta coisa em jogo na eleição, será que vale a pena não combater nada? Ser isento e pacífico durante ameaças e perigos?  

 

Por que montam uma campanha combativa?  

As campanhas combativas são aquelas que reconhecem o ambiente político como uma arena de disputas ideológicas em que é preciso se preparar para atacar e se defender. Possivelmente é a estratégia utilizada com maior frequência na vida pública.  


Argumentos favoráveis  

Se por um lado, a polarização tende a ser vista como algo negativo, por outro ela também ajuda a “despertar” a população. Em outros termos, um discurso mais combativo não necessariamente inventa uma divisão, pois os conflitos já são existentes, mas pela falta de destaque se tornam despercebidos. Por exemplo, um candidato se propõe atacar alguns setores do agronegócio que não tem compromisso com o meio ambiente. Por mais que essa postura polarize, não é algo artificial, pois o confronto deste grupo com os ambientalistas é real, mas às vezes ignorado. Portanto, campanhas combativas podem evitar uma ingenuidade e um certo tipo de alienação, quando colocam luz aos problemas e quem são seus responsáveis.

 

Argumentos contrários  

Do ponto de vista temporal, se uma campanha é uma fotografia, um mandato seria uma série de 14 temporadas com 22 episódios cada. Nesse sentido, há consequências negativas em montar uma campanha combativa. Primeiro porque atacar demais significa prometer muita coisa durante as eleições que pode não ser cumprida Por exemplo, em uma situação hipotética, um candidato passa meses das eleições atacando seu adversário que apoia o aumento de impostos. Ele ganha a eleição, surge uma crise e seus consultores percebem que a melhor alternativa para resolver a dívida pública é, ironicamente, aumentar a tributação. Logo, essa mudança de posições é vista como uma traição pela sua base de apoio. Talvez, se as críticas não tivessem sido tão firmes na eleição, haveria mais espaço para alterar posicionamentos no governo. 

Depois, atacar também pode levar a uma perda de apoio no andamento do governo. Principalmente as agressões pessoais que criam mágoas na oposição. Dessa forma, não existe pragmatismo que resista ao ressentimento que permanece latente nos derrotados nas urnas de campanhas agressivas. Por conseguinte, as sabotagens e o revanchismo contra as propostas do governo se tornam comuns pela oposição inconformada com as antigas agressões. Em síntese, não basta apenas chegar ao poder, é preciso apoio para se manter nele e conseguir alguns feitos.  

 

Existe um equilíbrio entre ambas as campanhas? 

Existe um meio termo que surge da diferença entre combater com a verdade e atacar com a mentira. Pode parecer abstrato, mas é possível ir para a luta e montar uma campanha em que se combate o outro sem tentar destruí-lo. Isso acontece quando adversários não são vistos como inimigos. 

Uma coisa é desconstruir o outro por meio de difamações, ataques pessoais, ameaças, preconceitos, ideias distorcidas , fake news,  discurso de ódio e entre tantas outras formas de propagar a ideia de que o outro representa um perigo e , portanto, não deve ser eleito. Outra é vencer um concorrente por meio de argumentos concretos, fatos e uma linguagem consistente para revelar que as propostas do adversário são vagas.  Obviamente essa segunda estratégia combativa dá muito mais trabalho, envolve pesquisa sistemática, preparo meticuloso e uma capacidade de autoavaliação constante para verificar se sua estratégia de campanha está de acordo com a ética e a verdade.

 






José Rossin é estudante e membro da Epep FGV

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