Períodos de instabilidade institucional e decadência
econômica geram ampla insatisfação popular motivada por causas variadas e pouco
definidas. As diversas formas que uma crise assume impedem, acima de tudo, a
designação de um único culpado. Tais características constituem um quadro
favorável à ascensão de lideranças políticas populistas, que exploram a
fragilidade de uma sociedade em crise para ascender ao poder.
A persuasão típica de um populista, baseada em discursos
emotivos e inflamados, é capaz de direcionar parte expressiva da sociedade a
conclusões equivocadas sobre os responsáveis pela crise. A ele é possível
canalizar as insatisfações abstratas da população e direcioná-las, quase sempre por meio de acusações e
apelações, a um conjunto de agentes que passam a ser vistos como culpados pela
situação de carência e estagnação. Isso revela uma característica sombria no
modus operandi populista: o apontamento de bodes expiatórios como forma de
legitimação pelo medo e pelo conflito. Isso permite ao mandatário justificar
qualquer tipo de ação através do argumento da defesa da população ou dos
valores nacionais, bem como manter o respaldo popular ainda que substituindo
projetos de governo por ambições pessoais.
A tirania e o autoritarismo tornam-se perfeitamente
acessíveis a um líder nacional que provoca um conflito constante entre o “povo”
e os “inimigos do povo”. Esse embate justifica medidas arbitrárias e, muitas
vezes, antidemocráticas, com base na defesa da população ou no combate aos
grupos rotulados como inimigos, avessos ao progresso e ao bem-estar da
sociedade.
Trata-se de uma forma velada de autoritarismo, que não se dá
de forma imediata, mas gradualmente, através de um processo de usurpação
não-violenta das liberdades. Não é feito, portanto, por meio da infração
evidente da Constituição, e sim com base em sua adaptação para atender a
interesses próprios. Frequentemente, lideranças populistas pautam-se na própria
Constituição para justificar a barbárie, sem confrontar diretamente a lei
maior, mas torcendo seu real significado e propósito.
Assim, o governante consegue
utilizar-se da instabilidade criada para instaurar, gradativamente, um regime
de decisões arbitrárias sem perder apoio popular e o status de “herói do país”
-ou “mito”. A sabotagem das instituições democráticas para o estabelecimento de
um projeto pessoal de poder deixa, então, de ser amplamente contestada. Isso
porque a maioria da população se retém entretida em uma disputa quixotesca
entre forças criadas artificialmente, com o intuito de desviar o foco de um
projeto que nada possui de concreto para a melhoria de seu bem-estar.
Engana-se quem ainda acredita que o fim das liberdades e das
instituições democráticas se daria através de um golpe abrupto e barulhento,
como a História já reportou repetidas vezes. Trata-se de um processo moderno,
sutil e silencioso, o qual pode ser percebido somente quando já é tarde demais
para revertê-lo.
Victor Lopes é estudante de Administração da faculdade de economia , Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo


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