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Populismo nas raízes do autoritarismo contemporâneo , por Victor Lopes



Períodos de instabilidade institucional e decadência econômica geram ampla insatisfação popular motivada por causas variadas e pouco definidas. As diversas formas que uma crise assume impedem, acima de tudo, a designação de um único culpado. Tais características constituem um quadro favorável à ascensão de lideranças políticas populistas, que exploram a fragilidade de uma sociedade em crise para ascender ao poder.

A persuasão típica de um populista, baseada em discursos emotivos e inflamados, é capaz de direcionar parte expressiva da sociedade a conclusões equivocadas sobre os responsáveis pela crise. A ele é possível canalizar as insatisfações abstratas da população e direcioná-las,  quase sempre por meio de acusações e apelações, a um conjunto de agentes que passam a ser vistos como culpados pela situação de carência e estagnação. Isso revela uma característica sombria no modus operandi populista: o apontamento de bodes expiatórios como forma de legitimação pelo medo e pelo conflito. Isso permite ao mandatário justificar qualquer tipo de ação através do argumento da defesa da população ou dos valores nacionais, bem como manter o respaldo popular ainda que substituindo projetos de governo por ambições pessoais.

A tirania e o autoritarismo tornam-se perfeitamente acessíveis a um líder nacional que provoca um conflito constante entre o “povo” e os “inimigos do povo”. Esse embate justifica medidas arbitrárias e, muitas vezes, antidemocráticas, com base na defesa da população ou no combate aos grupos rotulados como inimigos, avessos ao progresso e ao bem-estar da sociedade.

Trata-se de uma forma velada de autoritarismo, que não se dá de forma imediata, mas gradualmente, através de um processo de usurpação não-violenta das liberdades. Não é feito, portanto, por meio da infração evidente da Constituição, e sim com base em sua adaptação para atender a interesses próprios. Frequentemente, lideranças populistas pautam-se na própria Constituição para justificar a barbárie, sem confrontar diretamente a lei maior, mas torcendo seu real significado e propósito.

Assim, o governante consegue utilizar-se da instabilidade criada para instaurar, gradativamente, um regime de decisões arbitrárias sem perder apoio popular e o status de “herói do país” -ou “mito”. A sabotagem das instituições democráticas para o estabelecimento de um projeto pessoal de poder deixa, então, de ser amplamente contestada. Isso porque a maioria da população se retém entretida em uma disputa quixotesca entre forças criadas artificialmente, com o intuito de desviar o foco de um projeto que nada possui de concreto para a melhoria de seu bem-estar.

Engana-se quem ainda acredita que o fim das liberdades e das instituições democráticas se daria através de um golpe abrupto e barulhento, como a História já reportou repetidas vezes. Trata-se de um processo moderno, sutil e silencioso, o qual pode ser percebido somente quando já é tarde demais para revertê-lo.

 

 



Victor Lopes é estudante de Administração da faculdade de economia , Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo









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