Atualmente, a sociedade é altamente
vascularizada pela ciência. Nas escolas, no debate público e em várias outras
esferas da vida cotidiana percebe-se isso. A criteriosidade do método
científico trouxe frutos muito positivos, principalmente quando somado ao
debate e ao questionamento das teorias vigentes. Contudo, nem sempre foi assim.
Na idade média, por exemplo, a Igreja detinha o monopólio dos conhecimentos a
respeito do mundo, o que justifica a opinião de vários historiadores a respeito
do pouco progresso técnico dessa época. Com o tempo e com o enfraquecimento da
Igreja, por volta da metade do século 17, René Descartes, pela primeira vez,
enxergou a necessidade de um método criterioso que averiguasse a veracidade das
informações que circulavam na época. Nesse sentido, criou o método cartesiano,
que tornava mais precisa a análise dos postulados até o momento apresentados,
provando que muitos deles eram equivocados. 4 séculos depois, ainda carrega-se
esse fardo da incerteza. Contudo, desta vez, as proporções aumentaram,
consideravelmente, graças ao advento e a popularização da internet. Isso
porque, na rede não há comprometimento com a criteriosidade e veracidade na
veiculação de notícias e ideias. O ciberespaço abre brechas para a remoção do
embasamento, trazendo uma argumentação vazia mas que se encaixa na realidade
ilusoriamente, revelando uma face desequilibrada do mundo ocidental no século
21, o que, evidentemente, inclui o Brasil. Nessa ótica, em uma sociedade
marcada pelo rápido fluxo de troca de informações; evidencia-se uma conflitante
relação entre conteúdo e forma do principal meio de comunicação atual.
Consequentemente, é apresentado, cada vez mais, um comportamento descuidado ou
até preguiçoso em relação às opiniões consumidas ao longo da vida, principalmente,
quando essas respostas são obtidas através das redes sociais.
A curiosidade é inata ao indivíduo e
a velocidade implicada pela globalização apenas acentua essa característica.
Isso porque, só pára-se de temer o desconhecido, quando este o deixa de ser, e
é a curiosidade que nos motiva a realizar esse movimento. Agora, com milhares
de recursos verbais e não verbais mais rapidamente chegando ao alcance de
nossos olhos - devido a um mundo mais conectado - cada novidade instiga a nós,
por sua vez, gerando a necessidade imediatista de compreender o que vimos. Na
mesma velocidade que as notícias nos atingem, demandamos uma confirmação de sua
veracidade. Não se tem tempo para parar e pesquisar a fundo todos os assuntos
que são consumidos, mas são demandadas explicações mesmo assim. Nessa mistura
de imediatismo da vida cotidiana com demanda por justificativas cabíveis, dá-se
brecha às pseudociências e pós verdades. Estas e essas trazem, pragmática mas
inadequadamente, uma sensação confortável que satisfaz os desejos dos
indivíduos.
Em 2020, muito evidenciou-se sobre
esse tema. Correntes em redes sociais, portais questionáveis, e muitos outros
responsáveis por disseminarem (des)informações, espalham, sem comprovação
científica, que a vacina é dúbia ou que a hidroxicloroquina é eficaz, mesmo com a comunidade acadêmica
comprovando o contrário. Outro exemplo, foram as eleições estadunidenses, em
que Donald Trump argumentou, sem provas concretas, uma suposta fraude, ao invés
de aceitar a derrota para Biden e Harris, enganando os eleitores. Nesses
cenários, os espectadores, em busca da compreensão da situação que os circunda,
caem nessas falácias por, muitas vezes, acreditarem cegamente no que é visto,
concordando com indivíduos que não questionam nem o próprio bom senso, mas que
passam a ilusão de serem confiáveis. “O bom senso é a coisa mais bem
compartilhada do mundo; pois cada pessoa pensa estar tão bem provida dele, que
mesmo as mais difíceis de satisfazer em qualquer outra coisa não têm o costume
de desejá-lo mais do que o possuem” (DESCARTES, 2018). Ou seja, a falha de quem
lê está na falta de questionamento interno a respeito do consumido, tornando-se
até um propagador acidental. Já quem propaga intencionalmente, tem a intenção
de lucrar sobre a desonestidade, o que também demonstra falta de reflexão.
Na era contemporânea, o Estado
possui um papel muito mais direto do que naquela época, principalmente, em
relação à educação. Não se pode negar que o fenômeno das fake news é agravado pela globalização, mas sua causa real é devido
à má aplicação de políticas públicas, uma vez que ele [o fenômeno] já existia a
4 séculos atrás. O ato de questionar não é inato a nós, pelo contrário, é uma
construção que se não for exercitada não será desenvolvida. Nesse sentido,
levando em conta que no Brasil há um grave fenômeno de desvalorização do
pensamento crítico dentro de todas as esferas da vida pública, percebe-se que o
exercício da dúvida sobre o que é dito cai por terra. Isso, de forma alguma,
significa que somos burros, apenas não temos o hábito de questionar a estrutura
que nos cerca. Um grande exemplo da desvalorização do pensamento crítico, no
âmbito mundial recente, são as políticas adotadas pelos governantes mundiais.
Donald Trump - já fora do cargo -, Jair Bolsonaro, Recep Erdogan, entre outros,
usufruem da radicalização das massas por meio da demonização das oposições,
propagando notícias baseadas em suposições, que fazem seus apoiadores os verem
como salvadores e pináculos da justiça. Seus apoiadores por sua vez, por não
terem construído o hábito do questionamento, caem nos discursos populistas*. Dessa
forma, tem-se uma alta vascularização social das pós verdades e de movimentos
pró pseudociência, como os anti vacina.
Em suma, a forma rápida e o conteúdo
incerto das informações no século 21, criam uma atmosfera brasileira e mundial
desequilibrada a respeito da realidade. Nesse sentido, apesar de discutir-se
essa temática há quase 400, o ciclo parece repetir-se ou mesmo nunca ter
acabado. Portanto, cada vez mais, os indivíduos encontram-se fazendo a mesma
pergunta que Descartes se fez no passado, graças à incerteza que os cerca.
*Esse
termo é explicado em outro texto publicado por Tiago Moutta.
DESCARTES, René. O
Discurso sobre o Método. Petrópolis, Rj: Vozes de Bolso, 2018.
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