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A (des)informação no mundo ocidental atual, por Rafael Lopes

 



 

           

Atualmente, a sociedade é altamente vascularizada pela ciência. Nas escolas, no debate público e em várias outras esferas da vida cotidiana percebe-se isso. A criteriosidade do método científico trouxe frutos muito positivos, principalmente quando somado ao debate e ao questionamento das teorias vigentes. Contudo, nem sempre foi assim. Na idade média, por exemplo, a Igreja detinha o monopólio dos conhecimentos a respeito do mundo, o que justifica a opinião de vários historiadores a respeito do pouco progresso técnico dessa época. Com o tempo e com o enfraquecimento da Igreja, por volta da metade do século 17, René Descartes, pela primeira vez, enxergou a necessidade de um método criterioso que averiguasse a veracidade das informações que circulavam na época. Nesse sentido, criou o método cartesiano, que tornava mais precisa a análise dos postulados até o momento apresentados, provando que muitos deles eram equivocados. 4 séculos depois, ainda carrega-se esse fardo da incerteza. Contudo, desta vez, as proporções aumentaram, consideravelmente, graças ao advento e a popularização da internet. Isso porque, na rede não há comprometimento com a criteriosidade e veracidade na veiculação de notícias e ideias. O ciberespaço abre brechas para a remoção do embasamento, trazendo uma argumentação vazia mas que se encaixa na realidade ilusoriamente, revelando uma face desequilibrada do mundo ocidental no século 21, o que, evidentemente, inclui o Brasil. Nessa ótica, em uma sociedade marcada pelo rápido fluxo de troca de informações; evidencia-se uma conflitante relação entre conteúdo e forma do principal meio de comunicação atual. Consequentemente, é apresentado, cada vez mais, um comportamento descuidado ou até preguiçoso em relação às opiniões consumidas ao longo da vida, principalmente, quando essas respostas são obtidas através das redes sociais.

A curiosidade é inata ao indivíduo e a velocidade implicada pela globalização apenas acentua essa característica. Isso porque, só pára-se de temer o desconhecido, quando este o deixa de ser, e é a curiosidade que nos motiva a realizar esse movimento. Agora, com milhares de recursos verbais e não verbais mais rapidamente chegando ao alcance de nossos olhos - devido a um mundo mais conectado - cada novidade instiga a nós, por sua vez, gerando a necessidade imediatista de compreender o que vimos. Na mesma velocidade que as notícias nos atingem, demandamos uma confirmação de sua veracidade. Não se tem tempo para parar e pesquisar a fundo todos os assuntos que são consumidos, mas são demandadas explicações mesmo assim. Nessa mistura de imediatismo da vida cotidiana com demanda por justificativas cabíveis, dá-se brecha às pseudociências e pós verdades. Estas e essas trazem, pragmática mas inadequadamente, uma sensação confortável que satisfaz os desejos dos indivíduos.

Em 2020, muito evidenciou-se sobre esse tema. Correntes em redes sociais, portais questionáveis, e muitos outros responsáveis por disseminarem (des)informações, espalham, sem comprovação científica, que a vacina é dúbia ou que a hidroxicloroquina é  eficaz, mesmo com a comunidade acadêmica comprovando o contrário. Outro exemplo, foram as eleições estadunidenses, em que Donald Trump argumentou, sem provas concretas, uma suposta fraude, ao invés de aceitar a derrota para Biden e Harris, enganando os eleitores. Nesses cenários, os espectadores, em busca da compreensão da situação que os circunda, caem nessas falácias por, muitas vezes, acreditarem cegamente no que é visto, concordando com indivíduos que não questionam nem o próprio bom senso, mas que passam a ilusão de serem confiáveis. “O bom senso é a coisa mais bem compartilhada do mundo; pois cada pessoa pensa estar tão bem provida dele, que mesmo as mais difíceis de satisfazer em qualquer outra coisa não têm o costume de desejá-lo mais do que o possuem” (DESCARTES, 2018). Ou seja, a falha de quem lê está na falta de questionamento interno a respeito do consumido, tornando-se até um propagador acidental. Já quem propaga intencionalmente, tem a intenção de lucrar sobre a desonestidade, o que também demonstra falta de reflexão.

Na era contemporânea, o Estado possui um papel muito mais direto do que naquela época, principalmente, em relação à educação. Não se pode negar que o fenômeno das fake news é agravado pela globalização, mas sua causa real é devido à má aplicação de políticas públicas, uma vez que ele [o fenômeno] já existia a 4 séculos atrás. O ato de questionar não é inato a nós, pelo contrário, é uma construção que se não for exercitada não será desenvolvida. Nesse sentido, levando em conta que no Brasil há um grave fenômeno de desvalorização do pensamento crítico dentro de todas as esferas da vida pública, percebe-se que o exercício da dúvida sobre o que é dito cai por terra. Isso, de forma alguma, significa que somos burros, apenas não temos o hábito de questionar a estrutura que nos cerca. Um grande exemplo da desvalorização do pensamento crítico, no âmbito mundial recente, são as políticas adotadas pelos governantes mundiais. Donald Trump - já fora do cargo -, Jair Bolsonaro, Recep Erdogan, entre outros, usufruem da radicalização das massas por meio da demonização das oposições, propagando notícias baseadas em suposições, que fazem seus apoiadores os verem como salvadores e pináculos da justiça. Seus apoiadores por sua vez, por não terem construído o hábito do questionamento, caem nos discursos populistas*. Dessa forma, tem-se uma alta vascularização social das pós verdades e de movimentos pró pseudociência, como os anti vacina.

Em suma, a forma rápida e o conteúdo incerto das informações no século 21, criam uma atmosfera brasileira e mundial desequilibrada a respeito da realidade. Nesse sentido, apesar de discutir-se essa temática há quase 400, o ciclo parece repetir-se ou mesmo nunca ter acabado. Portanto, cada vez mais, os indivíduos encontram-se fazendo a mesma pergunta que Descartes se fez no passado, graças à incerteza que os cerca. 

 

 

*Esse termo é explicado em outro texto publicado por Tiago Moutta.

 

DESCARTES, René. O Discurso sobre o Método. Petrópolis, Rj: Vozes de Bolso, 2018.

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